sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Maré

Lencol aquático,azul ciano
quebra o estatico,esconde o dano
olhando hoje,ninguem diria,
teu manto cobre a tirania.

Num ondular tao inconstante,
livro que nega sua estante.
Danças,moves e recrias,
cinzas de eras caídas.

Em ti a pupila capta paz
ser que nem o sonho traz...
Mediocre se revela a semente
que com o olhar cala a mente.

Pensar dói e pensar custa,
faz da forma nossa puta.
Conteúdo te rejeito,
dás trabalho ao sujeito!

De noite Neptuno invoco,
durmam filhos que degredam
quero sentir abalar o mundo
que meus iguais abateram.

Olhai Senhor

Senhor,deixai vosso traje em minha mao.
Pousai a moeda,ouvide atento
O canto do povo fiel alimento.

Ouvide os sinos de sua igreja,entoar sofrimento,olhe e veja.
Sua mao,senhor é branca e macia,neve gelada em àrvore esguia.
A mao do povo é rio a quebrar,onde o proprio homem desconhece nadar.

Olhai para o campo,o camponês cheira,a animal,besta,maresia e madeira.
Permita-me questionar,severo senhor,deixará também ouro,seu amargo odor?

Olhai corpos imoveis ,no andar da guerra.
Gritos,ferozes, ecoam na atmosfera.

Senhor,deixai capa e bastao em minha casa.
Pousai a ganância ouvide a palavra,
O berro do povo, é deveras velho e lento...
Porém lentamente surge tempestade do vento.

Criança

Nasceu sob o astro brilhante,criança,
em terreno pisado,pelas fúrias do tempo.
Pousando a mente na eterna esperança.
Eventualmente embalada, no timbre do vento.

Aqui surge,aqui habita,ser de aura celeste
corpo de pele humana que a alma reveste.
Na ausência de som a ideia concentra.
Arquitecta involutaria de um sombrio planeta.

O mestre ensina a santissima doutrina
segue e cega quem com olhos caminha.
Porém a criança em seu maternal berço
Negando o mestre,torna o feitiço inverso.

Na casa de banho

Esta ideia surgiu-me após ter tido uma conversa bastante estranha com a minha mae.
Devo dizer que por aquela altura nos encontravamos no terminal de autocarros a conversar sobre primeiros socorros quando a minha mae volta da casa de banho,cara ligeiramente irritada para me perguntar porque é que os "putos riscam as paredes das casas de banho".
É engraçado porque qualquer pessoa digna do estatuto de "mentalmente capacitada" responderia algo como:"Olha porque sao estúpidos".
Mas de facto,eu nos meus quarenta e cinco minutos de inactividade que fossem "cerebralmente" relevantes decidi estudar o caso.
Ora vejamos:
Uma casa de banho é um espaço visitado por x pessoas diariamente.
Estas pessoas,sentam-se todas com uma probabilidade de 100% na sanita e teoricamente 100% das mesmas olham,por impulso lógico para a sua frente (onde pela lógica se encontra riscada a porta).
Isto faz com que nao seja uma opçao ler o "Amo-te fofinho do meu coraçao" mas quase uma obrigaçao,uma garantia ao seu autor de que a sua mensagem será lida.
Nao é isto um acto que na sua "estupidez periférica" se revela "nuclearmente inteligente"?
Usar a lógica e os angulos da visao de um ser para conseguir passar uma mensagem?
Na verdade,contei exactamente o que acabei de escrever à minha mae e as pessoas à minha volta acenaram impressionadas com a cabeça,pois de facto,a miuda devia ter alguma razao no que dizia.
O que acabei de fazer é exactamente aquilo que qualquer politico politicamente incorrecto tem como uso fazer diante de seu público,encontrar na estupidez pura das coisas uma perspectiva super inteligente que na verdade nao faz com que a coisa deixe de ser estúpida na essência.
Voltemos às retretes e aos rabiscos para concluir que por norma,é feio rabiscar em sitios que nao nos pertencem.
Para além deste facto que interesse tem quem esta a fazer o que a biologia lhe permite de ler frases pouco produtivas em portas de casas de banho?
A revista Maria supostamente sacia essa necessidade dos mexericos.
Por outro lado porque nao usar a garantia quase certa de 100% de um angulo visual virado para a porta de uma casa de banho para escrever frases que chamem a atençao do povo para problemas socialmente sérios?
Ou entao que tal fazer uso de uma faca suiça para esculpir a superficie da porta na forma de uma estatua grega?
Os artistas diriam,"você ganhara um prémio nobel por contribuir para a divulgaçao da arte na sociedade".
Os politicos diriam "você usou o seu ambiente de maneira estrategicamente inteligente para a divulgaçao de uma ideia".
A mulher da limpeza diria "limpa-me já essa merda".
Um acto,três perspectivas e todas elas de certa forma legitimas.
Recordo-vos que estamos neste preciso momento,a falar de portas de casas de banho ornamentadas com rabiscos feitos por pessoas na média pouco mais novas que eu (sebem que mesmo alguns trintoes que se encontrem em crises de identidade se sentem atraidos pela ideia de rabiscar a tabua rasa mais rabiscada de sempre).
Estamos a falar de CASAS DE BANHO.Atençao.
No entanto tenho alguma certeza de que muitos de vos encontram-se um tanto entretidos a ler sobre o tema,nao por ser sobre casas de banho mas porque esta capacidade de "analisar" e "perspectivar" a coisa é uma daquelas modas que os jovens habituaram-se a ouvir e aprendem,assim sendo,a gostar.
"Isso é relativo".
"Isso depende do ponto de vista".
"Poderá eventualmente acontecer".
Meus caros senhores,senhoras e a espécie que se encontra no meio,o que vos lembra isto?
É engraçado como estou a gastar talvez meia hora ou tres quartos de uma hora a analisar portas de casas de banho e ainda nao me cansei de o fazer.
O que faço nao é muito diferente daquilo que um filosofo contemporâneo faria.
Porque os filosofos de hoje quando consideram um risco uma obra que traduz o subcosciente humano suprasensivel e abstracto na mais abstracta das maneiras possiveis, é olhado pelos espectadores com profunda admiraçao.
Quando aquilo é um risco.
Aquilo,senhores e senhoras,é uma p*** de um miseravel risco.
Nós estamos tao fixos e programados para a embalagem das coisas que o conteúdo é apenas um "extra".
Eu pergunto-me.Quando,exactamente é que descemos tao baixo?Ou sempre tivemos aqui plantados e só agora é que alguns se apercebem que as raizes estao mais enraizadas que nunca?
PORTAS de casas de banho senhores.
Somos como as portas das casas de banho,arranjamos uma perspectiva brilhante para vender a merda,mas a merda...é sempre a mesma.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Molde

Molda-me ao jeito de um palmo,
à distância entre astros,num terreno agridoce.
Pois ao moldar largas o traje,
que o pensamento te trouxe.

Tecidos que a psique ao embalar tece,
seda que o proprio ser se esquece.

Insere toda a carne e osso,num molde nao justo
no fundo de um poço porém recorda seu custo.

Agora a madeira o peito aperta,a dor programada o panico desperta.
Corre descalça sob pedra ardente,os passos acordam a besta dormente.

Segue-me,ergue-me novamente,
na torre onde apenas tempestade se sente.

Molda-me ao sabor da pimenta,pastor que escolhe sua ementa.
Molda-me ao som do desassossego,
que importa se a flor tenra,no fim morrer de medo?

Céu

Hoje, elevei o olhar ao céu porque de tanto olhar sempre em frente,entreguei este longo pano de azul ciano ao esquecimento.Sinto-me culpada,sim,um pouco atrapalhada até por deixar escapar algo tao imenso,algo tao protector para o plano de fundo do pensamento.Onde andava eu com a cabeça para nao ver o que me acompanha todas as vinte e quatro horas que marcam os meus dias?Os meus,os teus,os vossos,os nossos e o olhar dorme...dorme apenas,talvêz por cansaço ou outra coisa que nunca deve servir de justificaçao para tal crime.
Nao é um céu apenas,é um pedaço do mundo que nos alimenta a alma,a uns confere asas para voar,a outros olhos que se fixam nelas,ha quem anseie tanto o céu que se esquece da existência terrestre...Há quem caia sem saber,outros caiem sabendo que será inevitavél entao,a queda.O céu,aquele fragmento de eternidade,nao é o céu apenas mas é o “eu”.Quem se esquece do céu esquece-se de si mesmo pois os olhos que vêem o pormenor sao os olhos do foco e da alegria.Os olhos cansados,aqueles que dormem mesmo de dia...Esses olhos o nada alcançam.
Esqueci-me de mim mesma e hoje voltei a ver-me,com todas as minhas cores e formas,desde os azuis mais ternurentos até aos cinzentos que só os pastores conhecem.Serei eu?Seremos nós,como o céu,seres de cores e de tempos,de fases e de progresso de calor e ranger de dentes?Seremos nós?Ou fui eu apenas que quis ver no céu algo maior,algo que me fizesse sentir culpada por o esquecer.
Surgem dias em que me lembro que ali se encontra,suspenso por cordas invisiveis por cima do meu olhar.Quando o céu chora é um desses momentos...Porque só reparo eu no céu quando este chora?Porque só reparamos nós quando o céu chora...Talvêz por possuirmos a tendência inata de reparar em coisas apenas,quando estas se tornam negativas,quando estas quase nos obrigam a reparar,quando é tarde de mais para abrir um guarda-chuva porque nao tratamos de o levar conosco.
E por consequência nesse dia também me esqueci do meu,o esquecimento tem o seu preço,a falta de sensibilidade para prever um acontecimento igualmente o tem e assim passei o dia a caminhar no meio da àgua.
La estava ela,a chuva,la estava ele o céu,a contemplar-me e eu a ele e a susurrar-me com a ajuda do vento:
- Pssst....Próxima vez nao te esqueças de mim.
E eu sorri,um tanto incomodada pela minha falta de tacto pedindo desculpa com o silêncio por momentos,seguido de um “Nao me esquecerei”.
E assim foi,cada vez que coloco os pés na rua,olho para o céu,como se a natureza assim o quisesse ou algo maior ainda.
- Bom dia céu,estás elegante hoje,com esses violetas e esses pedaços esfarrapados de madre pérola.
O céu continua ali sentado,imóvel,nao preciso que me responda pois o meu acto responde por si mesmo.